Versão cinematográfica

No cinema, Cinquenta tons de cinza é apimentado, mas sem apelação

POR: NE10
Universal Pictures

Estudante de literatura inglesa – “romântica”, como se define –, tímida e ainda virgem aos 21 anos, Anastasia Steele é uma ovelhinha de pele alvíssima, lábios carnudos que não cansa de morder e grandes olhos azuis. Num encontro casual com o bilionário Christian Grey, ela quase se desmancha diante desse lobo mau dominador e intimidante, que parece ter saído de um editorial de moda. Anastasia e Christian são os personagens centrais de uma trilogia literária que já vendeu 100 milhões de exemplares e que há quatro anos vem incendiando a imaginação feminina.

Como virou praxe, é a dobradinha leia livro e veja o filme que vem sustentando a indústria cinematográfica americana. Agora, a vez é do longa-metragem Cinquenta tons de cinza, adaptação do romance erótico-sentimental homônimo, o primeiro da trilogia escrita pela inglesa E.L. James. O filme desembarca hoje nos cinemas brasileiros e mundiais com fôlego o suficiente para se transformar num grande sucesso de bilheteria.

Embora a campanha publicitária da Universal Pictures tenha tentado criar um escândalo, o resultado da versão cinematográfica, assinada pela cineasta Sam Taylor-Johnson, também inglesa, pode decepcionar os fãs mais radicais do romance. É que as cenas de sexo e de sadismo não são tão gráficas quanto as descritas no livro por E.L. James. Por outro lado, Dakota Johnson tem seu corpo explorado com o máximo de curiosidade pelas lentes do diretor de fotografia Seamus McGarvey.

Quem esperar algum tipo de choque terá que se contentar com a imaginação. Apesar da relação entre Anastasia e Christian ter a submissão e o sadismo como eixos, Cinquenta tons de cinza conta uma história de amor no estilo dos contos de fadas, como se Anastasia visse em Christian uma espécie de príncipe encantado.

Oriunda das artes plásticas e com apenas um longa-metragem no currículo – o biográfico O garoto de Liverpool, sobre a adolescência de John Lennon –, Sam Taylor-Johnson segura as rédeas do filme sem cair no mau gosto ou na apelação. Na maior parte do filme, fica evidente a elegante composição de suas imagens. Entre as inúmeras canções pop da trilha sonora, há até um trecho da Bachianas Nº 5, de Heitor Villa-Lobos, que sublinha um momento de introspecção de Christian Grey.

Mesmo sem causar uma comoção mais radical, as cenas em que Anastasia se submete aos caprichos sádicos de Christian são fortes o suficiente para incomodar parte do público feminino, principalmente as mulheres que não aceitam a violência como ingrediente de uma relação amorosa. Embora Christian elabore um contrato de permissões, não há fantasias por trás do seu desejo em ter Anastasia como presa submissa. “Eu não faço amor. Eu f... com força”, diz para a garota assustada, que não hesita em ter as mãos atadas, os olhos vendados e em perder a virgindade.

Talvez o que tenha agradado grande parte do público feminino tenha sido esta faceta rude de Christian, que não se perde em blablablá e vai direto ao assunto. Entretanto, essa particularidade da personalidade de Christian é fruto de demônios internos e da marcas dolorosas, que carrega desde a infância, como o fato de ser filho de uma prostituta viciada em crack. Toda essa carga emotiva tem como centro o quarto vermelho, um câmara de prazeres e dores forrada com os mais diversos apetrechos para amantes do sadomasoquismo.

O bom trabalho de Sam Taylor-Johnson também está presente na escolha de Dakota Johnson e Jamie Dornan para interpretar os personagens Anastasia Steele e Christian Grey, respectivamente. Tanto a atriz americana, filha dos atores Don Johnson e Melanie Griffith, quanto o ator irlandês, visto nas séries de TV Era uma vez e The fall, parecem terem sido talhados para seus respectivos papéis.

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