Tinha 40 anos

Morto pelo coronavírus, arapiraquense lutava para garantir o futuro dos filhos

Segundo irmão, se não fosse isolamento social, velório de Cícero Aneílson teria “parado Arapiraca”

POR: 7Segundos
Apaixonado por futebol, é homenageado por amigos
Reprodução

Os números de óbitos por covid-19 aumenta a cada dia e já há algum tempo não impressiona mais, como aconteceu no início da pandemia. Mas, por trás das estatísticas existem famílias e amigos que enfrentam um luto ainda mais amargo porque não puderam sequer se despedir direito daquela pessoa que partiu. Hoje quem passa pela situação é a família de Cícero Aneilson Pereira, assessor parlamentar que faleceu na noite de quinta-feira (28) no Hospital Afra Barbosa.

“Não sei nem explicar como a gente se sente numa hora dessa. Só dez pessoas da família podiam assistir o enterro e não teve velório, o caixão foi direto para ser sepultado. Se pudesse ter velório, com certeza a morte dele iria parar Arapiraca. Ele conhecia muita gente e era muito querido. Era uma pessoa que levava alegria por onde passava. A gente não para de receber mensagens de amigos e conhecidos, lamentando a morte dele”, relata o irmão dele, Ailton Ferreira da Silva.

Cícero Aneilson tinha 40 anos, estava casado pela segunda vez e tinha dois filhos do primeiro casamento. As crianças e o futebol eram as grandes paixões dele. Segundo o irmão, ele se preocupava com o futuro dos filhos e tinha como objetivo comprar uma casa para cada um, para que tivessem uma renda. “Mas ele morreu antes de conseguir realizar esse desejo”, lamenta.  

Para ele, jogar bola era mais do que esporte ou lazer, tanto que integrava a direção do clube amador Brasília Futebol Clube e jogava todos os finais de semana. Quem o via jogando bola, confraternizando com os amigos após a partida, ou mesmo trabalhando, percebia que Aneilson esbanjava disposição, apesar de ser diabético. Ele também era uma pessoa muito atuante, além de trabalhar como assessor do deputado Tarcizo Freire e de ser amigo do vereador Fábio Henrique, era também vice-presidente do residencial Belo Jardim, onde morava, e considerado uma liderança política no bairro Brasília. 

“Ele era uma pessoa lutadora. Chegou a ficar cego dos dois olhos um período por conta da diabetes e deu a volta por cima. Era uma pessoa muito ativa e estava sempre em contato com muitas pessoas. Depois que começou a pandemia, ele passou a ter mais cuidado, principalmente porque fazia parte do grupo de risco. Ele acreditava na doença e tinha conversado comigo para a gente parar de andar nessas aglomerações, se referindo a uma chácara de um amigo que a gente ia nos fins de semana, apesar de nunca ter pessoas de fora no local”, relatou.

De acordo com Ailton, há aproximadamente duas semanas, Cícero Aneílson passou a apresentar sintomas parecidos com o de uma gripe e teria permanecido em casa, se tratando com chás e remédios por conta própria. Na última segunda (25), com muita tosse e cansaço, procurou atendimento na Unidade Sentinela.

“Fazia alguns dias que a gente não se via, mas ele me telefonou para avisar que estava com muita falta de ar e, por conta disso, foi para o 3 Centro de Saúde. Depois de um tempo, ele ligou de novo e disse que estava com muito catarro no peito e estava tomando oxigênio. Na madrugada de segunda para terça, conseguiram um leito e ele foi transferido para o hospital Acra Barbosa. A esposa estava acompanhando e a gente sempre se falava. Teve uma melhora na terça, na quarta conversamos por chamada de vídeo e ele sempre falava para a gente tomar cuidado com essa doença”, relatou.

Na quinta-feira, mandou mensagem para o irmão avisando que havia colocado créditos no celular de Aneílson para que eles pudessem conversar. Não recebeu resposta mas no período da tarde, enquanto trabalhava na oficina, ouviu o irmão gritar do interior de um carro: “Meu irmão, se cuide. Você se ligue com essa doença, meu irmão”. 

“Eu levei um susto. Ele estava em uma picape, acompanhado de uma enfermeira. Não chegaram nem a parar o carro, só passaram mais devagar para que ele pudesse falar comigo. Foi a última vez que vi o meu irmão. Na hora fiquei sem entender o que estava acontecendo, achei até que ele tinha recebido alta e estava voltando para casa”, relata Ailton. Pouco depois, ele soube que o irmão havia sido levado para outra unidade hospitalar para ser submetido a uma tomografia no pulmão. “Parece que no hospital onde ele estava internado não tinha esse equipamento. Além disso, o que me pareceu mais errado mesmo é ele ter sido levado em um carro particular e não em uma ambulância para fazer esse exame”, declarou.

Neste mesmo dia, Aneílson gravou os áudios, que vitalizaram nas redes sociais nesta sexta-feira, direcionados a ele e a alguns amigos, sempre enfatizando que deveriam tomar os cuidados necessários para não serem contaminados pelo coronavírus. “Nos últimos dias, todas as vezes que a gente se falava, ele sempre dizia para a gente tomar cuidado. Nas mensagens também”, ressaltou.

Conforme relato de Ailton, por volta das 19h, já de volta ao leito no Memorial Djacy Barbosa, Cícero Aneílson teve uma piora muito rápida no quadro de saúde. Até então, ele estava apenas recebendo oxigênio. Quando a equipe médica fazia o procedimento de intubação, ele morreu. 

“Desde o começo, ele sempre acreditou nessa doença. Sempre pediu para que a gente tomasse cuidado. Tem algumas coisas que deixam a gente encucado. Mas nada vai trazer ele de volta”, lamentou.

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