Dor silenciada

Por que é tão difícil para mulheres que sofrem violência falarem?

Psicóloga fala dos medos que assombram mulheres que vivem relacionamentos abusivos

POR: Taísa Bibi
Psicóloga Keyla Cristine é especializada no tratamento de mulheres que vivem em relacionamentos abusivos
Cortesia

Um xingamento, depois um tapa, seguidos de juras de amor eterno, e por fim, ameaças. Assim se dá o ciclo da violência doméstica. Milhares de mulheres são violentadas em seus lares diariamente e suas dores são silenciadas. Estima-se que apenas 10% das mulheres que sofrem violência doméstica chegam a denunciar seus agressores, a razão disso é explicada pela psicóloga Keyla Cristine.

Especializada no tratamento de mulheres que vivem em relacionamentos abusivos, a psicóloga vê na prática a necessidade de se ter um olhar diferenciado para essas mulheres, bem como o de compreender como cada indivíduo sente sua dor. “Refletir sobre os modos com que a dor se constitui nas experiências de vida e a forma como cada um de nós lidamos com ela, é importante para que o movimento da empatia seja instituído. É compreender que cada um sente a dor à sua maneira. A dor se expressa através da fala, mas se expressa principalmente pelo silêncio nos casos de violência”. 

De acordo com Keyla Cristine, esse silêncio acaba sendo um aliado da mulher, pois muitas vezes o silêncio é a sua salvação e da sua família. “Quebrar o silêncio tão ameaçado pelo agressor torna-se em muitos casos uma ameaça ainda maior do que permanecer sendo violentada. Isso acontece porque o medo do seu algoz as paralisam, as silenciam! O medo do seu agressor cria uma prisão emocional, onde essas mulheres vivem presas a uma corrente imaginária que as aprisionam, gerando algumas emoções e sentimentos,  causando grandes conflitos emocionais e afetivos”. 

Os agressores criam prisões emocionais nas vítima atreladas a ameaças reais. “O agressor mantém a vítima nessa prisão emocional através do seu poder de persuasão e manipulação, e faz isso através de ameaças, especialmente ameaças que incluem àqueles que as vítimas mais amam, geralmente a família, e isso é real. Esses agressores ameaçam matar algum componente da família caso a vítima fale, ameaçam fazendo com que a vítima sinta-se culpada pelas brigas, pela destruição da família. Faz com que a vítima seja envolvida por um medo terrível  do desconhecido por não saberem as reais consequências de suas atitudes após relatarem o abuso”, explica a psicóloga.

Keila Cristine destaca alguns dos medos mais comuns enfreados pelas mulheres vítimas de violência doméstica:

- O medo de perder a confiança aaqueles que elas amam;

- O medo de serem culpadas e causadoras pelo que aconteceu;

- O medo de destruírem a família ao revelarem o acontecido; 

- O medo da exposição;

- O medo do desconhecido de tudo que pode acontecer após relatarem o abuso;

- O medo de que o abusador cumpra as ameaças feitas (esse se não for o principal é um deles, a proteção a família);

- O medo de que aquelas pessoas que elas amam façam alguma besteira e se prejudiquem (temendo ficarem ainda mais desprotegidas e ainda mais culpadas se algo acontecer àqueles que amam).

Os medos se misturam em emoções e outros sentimentos mais fortes. “As emoções e os sentimentos são diversos, e se apresentam ao mesmo tempo despertando nas vítimas na maioria das vezes o desejo da morte na tentativa de acabar com sua dor”, explica Keyla Cristine. 

De acordo coma psicóloga se libertar desse processo não é fácil, mas é sim possível. “Se libertar e se fortalecer dentro desse processo não é fácil, mas, as correntes precisam ser quebradas para que possa ser  restabelecida a saúde mental e emocional, onde o brilho no olhar possa voltar e a vontade de viver possa ser maior que a dor vivenciada”. 

Keila deixa um alerta: “não se calem, o SILÊNCIO NÃO PROTEGE! Silenciar a manterá ainda por mais tempo nessa prisão, porém falar te libertará e te fará sair mais rápido dela. Procure ajuda, encontre alguém de confiança para desabafar e juntas encontrarem soluções para que suas lágrimas sejam substituídas por sorrisos”.

Mulheres não estão sozinhas

A Central de Atendimento à Mulher - Ligue 180 é um serviço atualmente oferecido pela Ouvidoria Nacional dos Direitos Humanos do Ministério dos Direitos Humanos (MDH). É uma política pública essencial para o enfrentamento à violência contra a mulher em âmbito nacional e internacional.

Por meio de ligação gratuita e confidencial, esse canal de denúncia funciona 24 horas por dia, todos os dias da semana, no Brasil e em outros 16 (dezesseis) países: Argentina, Bélgica, Espanha, EUA (São Francisco e Boston), França, Guiana Francesa, Holanda, Inglaterra, Itália, Luxemburgo, Noruega, Paraguai, Portugal, Suíça, Uruguai e Venezuela.

Além de registrar denúncias de violações contra mulheres, encaminhá-las aos órgãos competentes e realizar seu monitoramento, o Ligue 180 também dissemina informações sobre direitos da mulher, amparo legal e a rede de atendimento e acolhimento.

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