Arapiraca: 95 anos em 7Segundos

Casa das Louças: Tradição familiar no comércio de Arapiraca há mais de 50 anos

Com 55 de existência, a loja da família Souza é referência em utilidades domésticas

POR: 7Segundos
Casa das Louças: Tradição familiar no comércio de Arapiraca
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Há mais de meio século uma das principais lojas de utilidades domésticas resiste aos avanço das compras pela internet, das dezenas de lojas físicas concorrentes, e continua sendo uma referência para os consumidores de Arapiraca e dos municípios circunvizinhos. Há exatos 55 anos, a Casa das Louças fundada pela família Souza, que veio de Caruaru da década de 60, continua funcionando em um dos pontos simbólicos de Arapiraca: ao lado da igreja na Praça Manoel André.  

Para contar a tradicional história deste comércio familiar, o Portal 7Segundos entrevistou o casal José Severino de Souza, 78, mais conhecido como " seu Zezé", e Benedita da Silva Souza, 73, carinhosamente chamada de "Dona Nitinha". Essa matéria faz parte de uma série de reportagens que será publicadas durante o mês de outubro em comemoração aos 95 anos de emancipação política de Arapiraca. 

Em 1964,  o jovem casal saiu da cidade de Caruaru para iniciar uma nova vida em terras alagoanas ao adquirir um pequeno comércio de utilidades domésticas que pertencia ao irmão de Zezé. À época, Nitinha com 18 anos, e Zezé com 24, chegam ao Agreste de Alagoas, com o primogênito da família, Josenildo Souza, com então 1 ano e 4 meses de vida.

Com um talento nato para o comércio e com uma visão empreendedora, seu Zezé não se acomodava em ficar somente no balcão da loja esperando a chegada dos clientes. Ele conta que nos dias de feira livre levava as peças de alumínio e forrava uma grande lona no chão. " Tudo era vendido para as centenas de moradores de Arapiraca e de outros municípios que vinham realizar compras no comércio mais pungente da região", relatou.

Vale lembrar, que nas décadas de 60 e 70 a cultura do fumo atingiu seu apogeu e impulsionou a economia na segunda maior cidade de Alagoas.   

                                                         

A visão empreendedora do pernambucano foi um diferencial para a Casa das Louças se tornar uma referência neste segmento de setor comércio da cidade.  Seu Zezé conta que atraia e fidelizava os clientes trazendo as novidades da capital paulista como louças, cerâmicas, objetos de decoração e outros utensílios domésticos que faziam parte da infinidade de produtos que a loja oferecia.. " Eu fiz mais de 70 viagens a São Paulo para comprar produtos. As primeiras viagens foram de ônibus, depois caminhão e nos últimos anos de atividade, já viajava de avião", relatou.

Quando seu Zezé viajava para fazer as compras, dona Nitinha era quem ficava no comando da loja, nesta época contava com a ajuda do filho Josenildo, o "Josa", que já estava com cerca de dez anos de idade.

Dona Nitinha lembra desse época com nostalgia, e afirma que apesar de ter dedicado toda a juventude trabalhando no loja ao lado do esposo,  era um tempo de muita bonança. " Zezé chegava com vários caminhões carregados com mais de 10 mil peças de alumínio e tudo era vendido em poucos dias. A loja sempre estava lotada, era tanto dinheiro que não dava tempo de contar no horário de trabalho. Quando a gente chegava em casa eu forrava um lençol na minha cama de casal e a gente ia contar o dinheiro”, relembra.

As novidades trazidas da capital paulista e produtos mais sofisticados eram disputados por uma clientela fiel -  formada na sua grande maioria, por professoras, outros funcionários públicos e as pessoas mais abastadas da sociedade. " Quando tinha um casamento na cidade era um alvoroço. Todo mundo ia na loja para comprar presentes. Uma vez uma cliente minha disse que na festa de casamento só tinha papel de presente da Casa das Louças", lembrou com graciosidade.

A matriarca da família Souza relembra com saudades da época onde não havia tanta maldade nem violência. As relações de comércio eram prevalecidas pela confiança na palavra do cliente." Não existia cartão de crédito naquela época e as compras dos meus clientes era, anotadas em um caderninho de crediário. A cada mês eles abatiam um valor e já saia da loja com mais produtos comprados", afirmou.

                                                        

Ao lado dos pais, Josenildo Souza, que atualmente é o superintendente da Governadoria do Agreste, traz na memória muitas lembranças dessa época em que ele cresceu nos corredores da Casa das Louças. " Eu estudava um horário e o outro trabalhava na loja. Comecei muito cedo. Ali, aprendi a ter responsabilidade, a negociar e principalmente, a ser um homem de caráter", afirmou Josenildo Souza.

Mas ser o "filho" do dono da loja não trouxe regalias nem tampouco vida mansa para o primogênito da família. Josenildo conta que após chegar da escola, ele ia todos os dias com uma bacia gigante cheia de xícaras e de outra peças vender os produtos no mercado público. " Eu lembro que minha mãe sempre se preocupou com o asseio dos filhos. Eu ia ao mercado tomado b6anho, com uma roupa limpa e calçado com tênis. Quando voltava estava sujo e suado", relembra com nostalgia.

Foi nessa época que seu Zezé ensinou o filho a valorizar o esforço e a lidar com dinheiro. "Quando eu voltava meu pai contava tudo o que eu tinha apurado, separava o valor das peças que ele havia comprado e entregava pra mim o lucro. Eu tomava  outro banho, vestia roupas limpas e ia até a Pinguim comprar sorvete com meu próprio dinheiro", relembrou.

Os ensinamentos de seu Zezé e Dona Nitinha despertaram no jovem Josenildo Souza um grande senso de responsabilidade e habilidade empresarial. Antes mesmo de completar 18 anos já era dono da loja Di Modas e Presentes, um grande magazine que vendia desde enxoval, roupas infantis, cama, mesa, banho e material esportivo.

Com a saída do primogênito, a tradição familiar na Casa das Louças é perpetuada pelo segundo filho, Cleudson Souza, o 'Keu', que aos 17 anos inicia profissionalmente sua atuação na loja e permanece até os dias atuais. " Já são 34 anos trabalhando na mesma loja em que meus pais iniciaram a sua vida no comércio de Arapiraca. É uma grande responsabilidade manter o nome da família contribuindo para promover a economia local. Os tempos são outros, hoje a concorrência é maior e os desafios também. Mas seguimos firmes perpetuando essa tradição familiar", afirmou Cleudson.

Ele conta que mais de meio século se passou e ainda tem clientes da época dos pais dele que frequentam o local e nunca deixaram de comprar na Casa das Loucas. " Outro dia uma mulher esteve aqui e perguntou se a loja pertencia aos mesmos donos e eu respondi que sim.  Fiquei surpreso quando ela afirmou que havia comprado uma peça de porcelana aos meus pais para presentear a filha no dia do casamento. A peça de porcelana ainda existe e está m Portugal, onde atualmente vive a filha dela", contou Cleudson.

Seu Zezé e dona Nitinha tiveram outros dois filhos Lysiane e Marcelo, que também vivenciaram experiências no comércio da cidade mas atualmente desenvolvem outras atividades.

                                                           

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